Bruno Tausz |
Uma das maiores preocupações da população das grandes cidades é a agressão dos cães e a grande pergunta é:
Porque os cães atacam crianças inocentes e pessoas idosas que não representam ameaça? Porque alguns cães atacam o próprio dono?Falta
de conhecimento de etologia - os conceitos de propriedade mascaram
nossa visão da realidade. Nos consideramos "donos" dos animais
chamados domésticos, da mesma forma como nos considerávamos donos de
escravos no século passado, e da mesmíssima forma como nos consideramos
donos das mulheres, dos maridos, dos filhos etc. Pais acham que têm o
direito de bater em "seus" filhos e ninguém tem nada com isso.
Juridicamente, cães fazem parte do inventário como "semoventes".
Entretanto, se um filho bate no pai ou na mãe é
considerado um ato absurdo e altamente criminoso assim como, um cão morder
o próprio dono, é considerado um delito infinitamente maior que um marido
bater em "sua" mulher.
Entre
os lobos, ancestrais dos cães, o conceito familiar é diferente. Ao atingir
a adolescência, um filho pode, perfeitamente, disputar, com seu pai, a
liderança da matilha e essa disputa poderá evoluir até a morte de um dos
adversários.
O conceito de
corretivo, de punição, de castigo para "dar uma lição", impede
que possamos nos aprofundar no conhecimento do comportamento animal.
Um animal nunca erra, pelo simples fato que, erro é um
conceito exclusivamente humano. Assim como o conceito de punição. O homem
é a única espécie que pune, que castiga, que acha que é melhor que os
outros animais e que classifica os "outros" animais em: úteis,
inúteis e nocivos... em relação a ele, sempre ele. Isso dificulta muito
em entender como os animais se relacionam.
Hoje até os
tubarões estão passando por um processo de revisão conceitual. Estão
descobrindo que ele não é um predador, mas um faxineiro que tem um papel
semelhante ao do urubú. Os tubarões comem carniça marinha, e animais
feridos. O ataque a humanos é porque têm o mesmo comportamento de um
animal ferido, nadando na superfície e batendo as pernas, como se estivesse
agonizando. Tantas pessoas sobrevivem aos ataques de tubarões por essa
razão. A carne humana é muito ruim. Só dão uma mordida.
Educação
dos filhotes - os
humanos, seres inteligentes, passam 80% de suas vidas pensando
exclusivamente no que não querem. Quando ensinamos alguma coisa a alguém só
sabemos ensinar o que não pode. Quando o nosso cão está comportado, não
está fazendo mais do que a obrigação. Quando ele faz alguma
"arte" aí sim, tomamos alguma providência. Assim, só damos atenção
aos nossos cães quando eles fazem coisas erradas e ralhamos com ele.
Quando dois filhotes até dois adolescentes brincam a
brincadeira é de luta: um zangando com o outro (de mentirinha) o tempo
todo.
Quando ralhamos com um cão sem estarmos zangados, apenas
zangando, ele entende essa atitude como um convite à brincadeira.
Por exemplo: Estamos ocupados trabalhando e não podemos
desviar nossa atenção um segundo sequer. Nosso amado filhote nos adora e
vem deitar ao lado, comportado. Jamais terá nossa atenção. Aí ele fica
meia hora, quarenta minutos, depois se cansa, se levanta e se espreguiça,
olha para os lados, olha para nós e continuamos ocupados.
Aí ele desiste, olha embaixo da cama e vê um par de
chinelos.
Assim que ele pega o chinelo, largamos tudo o que era
importantíssimo e saímos correndo atrás dele.
Pronto! Acabamos de ensinar que, se ele quiser brincar
conosco, quando estamos ocupados, basta pegar o chinelo. Como ele não
chegou a estragar o chinelo, apenas zangamos: ai, ai, ai, não faça isso
ouviu?
Nesse exato momento damos a ele a certeza que estamos
brincando.
Utilizamos
essa colocação para começarmos a perceber que, sem querer, moldamos o
comportamento de nossos cães exatamente o oposto do que gostaríamos.
Medo quando escolhemos um cachorro,
inconscientemente, incluímos
nossas fantasias e nossas pretensões como itens de seleção, esquecendo que ele irá
conviver conosco durante, pelo menos, 10 anos.
Às vezes escolhemos, como se escolhe um
bichinho de pelúcia numa loja. Quero comprar um poodle para o aniversário da Lucinha
desses bem miudinhos, um micro-toy tamanho 00000. Aí ele começa a sujar em
casa, cresce e começa a morder, como parte da brincadeira de filhote, com aqueles dentes
fininhos a pele delicada da Lucinha. Mamãe corre para socorrer e zanga com o
"Fofo" pronto! Já o ensinou a morder a Lucinha para conseguir atenção.
A
Lucinha, por sua vez, já aprendeu que quando o "Fofo" morde, mamãe corre para
socorrer. Acabou-se o sossego e aquele filhote, que só seguiu seus instintos, está
pronto para ser doado. Como trata-se de um poodle é fácil doar. E quando a escolha
for um rottweiler ou um pitbull?
Outras vezes escolhemos um cão para ser um
fiel escudeiro da família. Claro que vamos escolher um cão com fama
"ruim" e que meta medo nos
assaltantes. Um pitbull! Só que, quando imaginamos um cão que meta medo num ladrão,
escolhemos uma raça da qual nós também temos medo. Quando tentamos
mexer na comida do filhote ele rosna. Por "respeito" aos direitos do cão de
proteger sua comida, deixamos para lá.
Por ocasião da sua adolescência haverá,
inevitavelmente, uma disputa de liderança como acontece com todas as espécies
de animais gregários. Será estabelecida a pirâmide hierárquica. O cão poderá submeter-se a uma,
duas, três, todas ou nenhuma pessoa da "matilha".
Uma vez fui visitar um dono de rottweiler e,
quanto entrei na sala de estar, o Tyson estava no sofá assistindo a novela e o resto da
família sentado no chão.
Se o "dono" do cão não tem
controle sobre ele, certamente será um filho desobediente. Como irá dar-lhe a educação
suficiente para não morder à-toa?
Criação - Se alguém decidir criar uma raça nova de
pequeno porte, certamente, não vai cruzar um dogue alemão com um fila brasileiro. Se o
sonho é uma raça de grande porte não vai cruzar um pinscher com um chihuahua. Da mesma
forma se, na sua imaginação, se configura um cão feroz, ele vai escolher para cruzar
exemplares de uma ou duas raças que considera bem agressivas. Cruzando sucessivamente
cães agressivos o resultado será desastroso. O que o criador tem em mente passa para sua
criação. Ao comprar seu mascote você deverá investir algum tempo conversando com o
criador para saber o que ele tem em mente.
Cuidado com o cão medroso todos os cães, sem
exceção, mordem por medo. Quando temos medo compramos uma arma, se temos muito medo, a
colocamos no coldre; se o medo aumentar, sacamos a arma; diante do perigo, atiramos. Ora
os cães já nascem com 42 dentes na boca. Seus dentes formam sua ferramenta de trabalho e
sua arma.
O medo faz parte da estrutura biológica dos
animais. É o medo que os conserva vivos diante dos perigos.
A coragem, fator hereditário, proporciona a
chance de vencer os medos. Um cão corajoso teme uma quantidade menor de situações
e,
conseqüentemente tem menos motivos para morder.
É preciso não confundir coragem com
agressividade. Um cão agressivo ou é pouco corajoso ou é mal educado.
Moda infelizmente, no Brasil, cães entram em moda.
O doberman já teve sua época: ficou marcado
como o cão assassino, que morde o próprio dono, que perde a memória após os 3 anos,
que a caixa craniana é menor que seu cérebro o qual ficava comprimido causando-lhe dor
e, conseqüentemente, o seu enfurecer.
O fila brasileiro, infelizmente, já começou
mal, com criadores que desejavam que seus cães não pudessem ser tocados sequer por
veterinários, só porque eram estranhos.
Hoje, tanto o doberman quanto o fila já
estão bem socializados.
O rottweiler como cão perigoso, muito
agressivo, contra-indicado para crianças e agora o pitbull, cão de rinha que, quando
enfurecido, ataca todo mundo.
Felizmente está em moda o
recolhedor do labrador ou, em inglês, Labrador Retriever, cujo conceito geral é de
docilidade, meiguice e afabilidade o brasileiro "dono" de cachorro está
mudando. Ainda assim, já se encontram pessoas que querem treinar o labrador
para ataque.
Bruno Tausz - Etólogo
Árbitro de Adestramento.
Árbitro de Estrutura e Beleza de Todas as Raças.